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| Foto: Getty Images |
O contexto vocês já sabem. Quando ainda tinha uma frequência diária por aqui, escrevi que, provavelmente, Hulkenberg na ainda Sauber era o mesmo que a gente aguardar o meteoro chegar por aqui.
Ele é o cara que menos tem a ver com a categoria e o que ela se tornou. Escrevi sobre isso em 2023. "Velho", sem academia de pilotos ou um patrocinador bancando, o tempo de Hulk parecia ter batido. Equipes e chances não faltaram. Azares e outras coisas resumiram a carreira desse competente piloto no "o cara sem pódios".
Enquanto escrevia isso, a ficção e a realidade se misturam de formas incríveis. Em meio a exibição da superprodução da Apple, fiquei pensando em como um filme, muito bem feito, tem suas nuances de pastelão e histórias não críveis. Para o cinema, é mais do que necessário. Afinal, sem a fantasia, qual o interesse em fazer um filme?
Brad Pitt, ou melhor, Sonny Hayes, mostram que algumas histórias podem não ser tão fantasiosas, por mais que o clichê da volta por cima de um underdog seja irresistível. É tiro e queda, é o arroz com feijão bem feito, bem temperado.
O alemão que prometia tanto nas categorias de base chega na F1, faz um barulho razoável, mas falha em dar o grande passo. Sempre fica no quase. É consistente, mas quando as coisas fogem do controle, ele desaparece. O tempo passa, os cavalos também e ele perde o bonde da história. Mais um bom piloto que, sem os números, acaba esquecido e até julgado de forma equivocada e injusta. A história é feita pelos vencedores.
Por isso uma certa desconfiança, ainda mais da geração drive to survive, quando Hulk finalmente volta para a categoria para guiar a Haas, até então o pior carro que ele guiou na carreira. Os mais jovens talvez não lembrem, mas Hulk fez chover naquela Sauber de 2013, a saudosa Sauber preta.
Mal saberíamos o que estava por vir. O piloto velho, que chamei de Roberto Pupo Moreno por ser um super trunfo na pandemia, tinha a última chance, que virou penúltima. Da Haas, uma aposta na Audi, ainda Sauber, pensando no futuro e o último capítulo da carreira.
O bonde passou, mas voltou. Hulk está a bordo."
Escrevi isso em 2022. Hulk mostrou hoje que a fábula de Sonny Hayes escrita por Hollywood não é uma hipérbole tão exagerada. O loiro galã, que teve os resultados que se esperava e tinha virado chacota ou desconfiança, vai para o pior carro do grid ao lado de um garoto promissor, que venceu a F3 e a F2 em sequência.
O carro de 2025 é um caso perdido, pois o foco está em 2026, quando a Audi vira Sauber. Cuidado, pois os suíços ainda estão no comando.
A história vocês viram hoje: largando em penúltimo, com um dos piores carros, só uma corrida maluca poderia transformar o limão em limonada.
O destino finalmente começou a sorrir para o alemão. Em 2025, a competência dele também teve altas dosagens de sorte. Isso explica os pontos conquistados na Austrália e na Espanha, principalmente. Hoje, a pena tinha chegado ao fim.
Com a estratégia correta e, claro, a sorte que lhe faltou em 14 anos, o flerte com o pódio virou realidade. Não era mais piada. Hoje, Hulkenberg entrou para a história. Não é um pódio qualquer. É um pódio depois de 239 corridas, várias equipes, desilusões, anos ausente e com um carro que não é dos melhores.
Nenhum desses ingredientes são inéditos na categoria, mas só Hulk consegue juntar todos esses contextos. Acrescente um detalhe maravilhoso: hoje, tivemos uma vitória da F1.
Escrevi também, em 2023, que Hulk era o último journeyman de uma categoria que não pertence mais a ele ou ao olhar que fui moldado, por exemplo. Numa era de jovens pilotos, drive to survive, academia de pilotos e pagantes bilionários, ver um cara que virou "lado B" atingir o auge justamente quando virou o patinho feio é uma vitória do automobilismo de verdade, que agora está em um caminho irreversível de se tornar apenas história.
Hulk é o que sobrou desse romantismo. Claro que não considero os campeões quarentões porque eles são, justamente, campeões. Nico é a raridade entre os raros. Só isso importa.
Precisava voltar ao velho hábito por ele, por mim e pela F1.
6 de julho de 2025: o dia que a prisão de Hulkenberg acabou. O sonho, agora, estava livre para voar.
Dino Viola, presidente da Roma quando a equipe venceu o bicampeonato italiano depois de 41 anos, falou mais ou menos isso, em trecho para o novo livro de Lorenzo Latini intitulado "Roma Scudetto - No porto com a bandeira", o que resume este momento:
"Esta conquista nos permite escapar da prisão do sonho. Chega de gaiolas ou grades: somos livres para viver este sonho e aproveitá-lo. Porque não há alegria maior do que acordar e perceber que aquele doce sonho finalmente é realidade."
Até!






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