quarta-feira, 3 de setembro de 2025

DIVISOR DE ÁGUAS?

 

Foto: Reprodução

Quando Lando Norris se equivocou, quase bateu em Oscar Piastri e acertou o muro dos boxes na reta final do circuito Gilles Villeneuve, por um minuto eu pensei: agora temos um campeonato.

Afinal, era o que precisava para acabar com aquele clima de camaradagem. São dois jovens pilotos, de muito talento e destinados desde sempre ao protagonismo, brigando pela glória máxima da F1. Eles não têm concorrentes. Apenas um ao outro, como sempre são os vizinhos de box, amplificados pela taça e a eternidade no horizonte.

Uma história semelhante com Hamilton e Rosberg. O título estremeceu eternamente uma relação amigável de infância, começando pelos incidentes de 2014. Ok, Piastri e Norris não são tão íntimos desde a tenra idade, mas há uma escalada de acontecimentos que atropelam boas intenções e relacionamentos.

Dá para lembrar de outros casos notórios do passado, que incluem obviamente Senna x Prost e os finais trágicos de Gilles Villeneuve e Didier Pironi na Ferrari.

É indiscutível que Norris se precipitou e tentou uma ultrapassagem impossível em um espaço inexistente. Erro de leitura provocado pela pressão? Talvez. Sempre vamos jogar com a obra pronta e os pontos na mesa. Lando está sentindo a responsabilidade.

Ele sempre foi a nova joia da McLaren, antes mesmo antes de chegar na F1, como mencionei por aqui há alguns bons anos. Ele tem a chance que o saudoso Vandoorne não teve, por exemplo. Nos dois primeiros anos, dominou o ainda não totalmente ambientado colega australiano.

Piastri também carrega um peso e uma pressão. Um cara que vence F3 e F2 em sequência é um talento raro, mas que poderia ter jogado tudo para fora ao romper com a Renault e conseguir, judicialmente, a vaga para a McLaren. Melhor projeto e um assento competitivo em vista. Por outro lado, estava entrando em um ambiente feito sob medida para Lando brilhar quando os papayas estivessem prontos.

E começaram a ficar ano passado. Ambos ensaiaram as primeiras vitórias, que virou um título de construtores que faltava desde os tempos de Ron Dennis, Hakkinen e Coulthard. Guardem esses nomes.

Zak Brown nunca escondeu a preferência por Norris. Talvez alguns não saibam, mas o pai de Lando tem muito dinheiro. Aporte não falta para McLaren, mas não é justo e nem correto dizer que o britânico só está lá por isso, muito pelo contrário.

Uma equipe traumatizada por Alonso e Hamilton, há quase 20 anos, certamente pensaria em “levar os meninos para casa” ao invés de fomentar uma briga no fim da corrida. A McLaren, apesar de já virtualmente campeã de construtores outra vez, fomentou a rivalidade, ou “sem preferências”. Nenhum dos dois pilotos aceitaria, obviamente. O resultado foi esse. Afobação e falta de controle.

A faísca é inevitável. Esporte de alto rendimento que é em equipe e individual ao mesmo. Ego e talento de pilotos nascidos e acostumados com o número um e os louros da vitória e do protagonismo.

Eu imaginei que Norris, mesmo equivocado, daria uma de Verstappen: ou minimizaria o erro, culparia a equipe ou abriria guerra pública com Piastri. Mesmo atrás na tabela, ele é o britânico do time. A pressão bateu em Lando. Dominou em duas temporadas de ambientação de Oscar. Agora que vale um brilho (ou melhor, o título), começa a sentir o incômodo de ver o protagonismo escorrendo das mãos e batendo no muro.

Ele fez o que se esperava de sua personalidade: colocou panos quentes na hora, se culpou e se desculpou com Piastri e a equipe pela “manobra idiota”. Sim, foi pouco inteligente, de fato, mas Norris também não precisa entregar mais pontos dos que os 10 que ele perdeu no Canadá e os 22 que Oscar abriu em uma decisão equivocada.

A McLaren também reforçou o erro do pupilo e, nos últimos dias, salientou uma preocupação: como Norris irá reagir a isso nas próximas corridas.

É verdade, falta muito campeonato pela frente. Quebras, erros, acertos e desencontros acontecem. Até aqui, Piastri parece mais centrado, equilibrado, consistente e menos propenso a erros e disputas que podem lhe custar pontos para o título.

Com a vantagem, mesmo que mínima, a tendência é que cada vez menos corra esses riscos, seja com Norris, Verstappen, Russell ou qualquer outro que esteja no caminho. Em uma briga pelo campeonato, é preciso olhar para o todo, para dezembro.

Talvez não tenhamos uma grande rivalidade visceral. A verdade é que isso foi um grande golpe para Lando, confirmado pelo mesmo e pela equipe.

A expectativa era para termos um Alonso x Hamilton ou um Hamilton x Rosberg.

No universo da McLaren, pode ser que o terreno se desenhe para que Zak Brown, Piastri e Norris sejam, respectivamente, Ron Dennis, Hakkinen e Coulthard, trinta anos depois.

A diferença, é claro, é que na época não havia brigas e todos sabiam o seu papel. Ron Dennis, no caso, era admirador incondicional do bicampeão, enquanto Zak escolheria, se pudesse, Lando para ser o rosto da equipe e do título que irá chegar para Woking depois de 17 anos.

No entanto...

Quando o motor da McLaren de Lando Norris estoura faltando poucas voltas para o fim do GP da Holanda, ele perde o segundo lugar (que já era ruim) e vê Oscar Piastri abrir mais 25 pontos de vantagem no campeonato, eu pensei: agora, ainda temos um campeonato.

Até!

terça-feira, 12 de agosto de 2025

A DERROTA INEVITÁVEL

 

Foto: Getty Images

Valorizamos a honestidade brutal, mas é difícil quando ela vai de encontro com as nossas crenças ou opiniões. Quando se chamou de inútil e que a Ferrari deveria procurar outro piloto, Hamilton foi extremamente sincero sobre o momento que vive na Ferrari nesses primeiros meses de equipe.

Isto é louvável. Um cara que compete em alto nível desde criança sem se eximir das responsabilidades impostas pelo trabalho e por ser, para muitos, o maior piloto da história. Por outro lado, há formas e formas dessa situação ser lidada. Que a cobrança e a frustração existem, sem dúvidas. Externar, dessa forma e publicamente, é que parece o problema.

Estamos lidando com imagem. Se o grande líder do projeto da maior equipe do mundo fala assim após uma sessão frustrante, qual a mensagem que isso passa para o público e os acionistas? Alesi e outras figuras importantes afirmaram que um Senna ou Schumacher jamais falariam isso dessa forma. Podem até sentir, mas não externar assim.

Não quero debater como alguém deve se manifestar porque é naturalmente ridículo e pretensioso. O que eu quero tentar aqui é entender o que se passa por trás desse tipo de manifestação. Isso vai muito além de um treino ruim, amplificado com a pole do companheiro. Sabemos disso.

Quem compete em alto nível sempre vai esperar excelência e vencer. Do contrário, não faz sentido se dedicar desta forma. Hamilton não precisa mais da F1 em qualquer dos aspectos assinalados: dinheiro, fama, poder, glória, etc. Por isso, a cobrança e frustração é genuína, principalmente quando é surpreendente no microfone para o mundo inteiro ver e ouvir.

Ao ser contratado para tirar a Ferrari da seca, Hamilton realiza um sonho de menino no último capítulo da carreira. É uma glória, mas também um peso. Ok, sabemos que Lewis passou por provações muito piores do que guiar e conseguir resultados em um esporte, mas o peso fica ainda maior para todo mundo que tenta repetir Schumacher.

Alonso e Vettel, os últimos campeões que chegaram, não conseguiram. Não existe combinação maior na transferência mais bombástica da F1 em quase 30 anos. Todos sabemos que o projeto é de longo prazo e o objetivo maior é a partir do ano que vem, quando o novo regulamento começa a entrar em vigor.

O problema começa quando as pessoas não entendem que Hamilton não está chegando na Ferrari no auge da carreira ou nos tempos de Schumacher onde era possível fazer testes ilimitados. A adaptação a um novo carro leva tempo, independentemente do talento ou da capacidade do piloto ser mais rápida e fácil ou mais lenta e difícil.

Do outro lado, não tem um Irvine ou um Barrichello, na figura de segundo piloto, por ali. É Charles Leclerc, no auge da carreira e com uma especialidade semelhante a de Hamilton: a volta lançada, não à toa o monegasco tem quase 30 poles na carreira sem ter um carro dominante. Por todo o contexto, não é um desafio fácil para Hamilton enfrentar o segundo companheiro de equipe mais difícil da carreira.

A grande questão que motiva o pensamento de Hamilton, externado de forma veemente após o qualyfing na Hungria, é que ele achou que seria fácil vencer Leclerc e ser dominante em um ambiente totalmente novo na carreira. Isso, certamente, vai levar tempo.

Hamilton e os fãs subestimaram não só Leclerc, mas um inimigo implacável: o tempo, a idade, o timing. Hamilton não está mais rápido do que no auge ou quando jovem. É inevitável perder décimos conforme o corpo desacelera, mesmo que os exercícios, a dedicação e a genética possam retardar ou esconder alguma coisa, mas os números são frios: é um piloto de 40 anos enfrentando outro de 27.

Vencer ou não Leclerc é possível e faz parte do jogo. No entanto, Hamilton precisa se acostumar com uma realidade triste para todos nós: ser derrotado por Leclerc, graças ao tempo. É inevitável.

Até!

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

O PRÓXIMO DA LISTA

 

Foto: Getty Images

O automobilismo brasileiro estava em um limbo até 2020, quando Felipe Drugovich começou a impressionar na F2 em meio a pandemia. Os frutos começaram a ser colhidos nos anos seguintes.

Se antes o Brasil não conquistava um título de fórmula em monoposto desde o Bruno Junqueira na F3000 em 2000, a nova safra deslanchou, começando com o próprio Drugovich. No entanto, os talentos que ali surgiam davam indícios e esperanças para uma nação ávida por um representante e, claro, um novo Senna para os saudosistas.

Já conhecemos a jornada de Gabriel Bortoleto e a ajuda de Alonso. O brasileiro, aliás, conquistou o melhor resultado na carreira e do Brasil em oito anos na F1. Hoje, vamos celebrar Rafael Câmara e o quarto título brasileiro em fórmulas em quatro anos. Estamos mal acostumados!

O pernambucano de 20 anos impressionou no kart a ponto de assinar com a academia da Ferrari antes de estrear nos monopostos, em 2021. Apenas nesta temporada é que o brasileiro chegou, depois de passar pelo FRECA, F4 e as competições de base do Oriente Médio, na F3. E foi uma temporada de gala.

Campeão com uma rodada de antecedência, Câmara repete o feito de estreantes do quilate do próprio Bortoleto, George Russell e Oscar Piastri a ser campeão como estreante. Bom frisar que seus adversários, apesar de serem mais jovens em termos de idade, são mais experientes na categoria. Ser campeão é ótimo. Conquistar a F3 com tamanha dominância se adaptando ao carro é impressionante.

As boas notícias não param por aí. Ao contrário de Bortoleto e Drugovich, Câmara já é apoiado por uma gigante desde muito cedo, quando observaram e captaram o talento do rapaz. Isso gera vantagens e atalhos. Obviamente, os resultados precisam acompanhar tudo isso, somada a pressão de "essere Ferrari". 

No ano que vem, Câmara já estará na F2, em equipe a ser anunciada. Sendo um piloto Ferrari, além do objetivo de chegar na equipe principal, a Haas é uma entrada interessante, sendo uma parceira dos italianos. Trajetória que o Bearman está seguindo. Estando na F2 e já com os pontos necessários para a superlicença, Câmara já poderia participar dos treinos livres. Para isso, a missão é continuar evoluindo no complicado grid da F2, que também terá um Fittipaldi alinhado para a próxima temporada.

Deixamos o futuro para o futuro. Agora, é comemorar porque não é todo ano que a safra brasileira conquista resultados tão importantes e entusiasmantes para o futuro no automobilismo mundial. O senso de vencer precisa estar mais aguçado principalmente para nós que não vimos "a era de ouro", no máximo o fim do apogeu com Barrichello e Massa.

Parabéns, Câmara!

segunda-feira, 28 de julho de 2025

NÃO É POR ACASO

 

Foto: XPB Images

É sempre bom lembrar que Oscar Piastri chegou como o rookie mais badalado e pressionado dos últimos tempos. Não é todo dia que alguém vence F3 e F2 de forma consecutiva. Há um período de adaptação ao migrar para a outra categoria, mas ele não sentiu isso. Também não é comum um cara com essas credenciais ter ficado um ano mofando na Alpine.

Também é incomum um novato colocar a equipe na justiça para assinar com a McLaren. Mesmo que tenha se saído vencedor, uma porta importante se fechou, embora outra tenha sido arrombada. Chegar na F1 com o peso dos títulos que chegou e a pressão de uma desgastante e estressante batalha judicial me levou a escrever sobre a pressão que o australiano carregava nos ombros.

Tudo isso se soma ao fato de chegar em uma equipe irregular e com um dono claro: Lando Norris. Não seria fácil. Outros talentos também chegaram com pompa de futuros protagonistas, mas naufragaram por estarem no lugar errado e na hora errada. Sim, sempre lembrarei de Stoffel Vandoorne por aqui.

Nos primeiros anos, o esperado aconteceu. Sem testes ilimitados, é preciso tempo para começar a andar próximo de quem está habituado. Piastri sofreu, mas ainda assim conseguiu sua primeira vitória na carreira. Ele e a McLaren cresceram na hora certa.

Isso seguiu. Na hora da pomada, a McLaren voltou a ser protagonista. De campeã de construtores, agora o título é mais do que realidade. O único rival é o vizinho da garagem. Piastri, agora, está mostrando porque foi disputado judicialmente, porque é campeão da F3 e da F2. Quando se adaptou e viu o que estava em jogo, está levando vantagem. Isso é um aspecto importante, sobretudo no mundo da F1 onde tudo é construído para um piloto e brigas internas não são sinônimo de coisas boas.

Na outra ponta do grid, Gabriel Bortoleto chegou com as mesmas credenciais. Campeão da F3 e da F2 em sequência. Tudo começou com um sonho, que foi virando realidade graças ao próprio talento e o apoio de um certo Fernando Alonso. Isso é mais importante que alguma academia de pilotos, talvez.

Justamente o mais talentoso da leva que subiu para a F1 ficou com a pior vaga, talvez justamente por não ser de nenhuma academia de pilotos. Estar na Sauber, cada vez mais Audi, é uma faca de dois gumes: sem possibilidade de pontuar, Bortoleto não seria muito exigido. Basta não errar, não bater e não ser tão inferior ao super experiente Nico Hulkenberg.

O pessoal esquece que Hulk sempre foi subestimado. Não a toa segue na categoria. Nunca precisou de grana para estar lá. Na F1, adaptação é tudo, conta mais que a idade. Bortoleto vai precisar de paciência que os brasileiros nunca terão. Só ano que vem ele estará inteiramente habituado a um carro de F1, considerando também os aspectos físicos.

O início e o senso espetacular de aproveitamento de Hulk já pressionam o garoto. “Pô, perdendo de lavada pra esse velho?” Ritmo inferior, azares e erros da equipe também tensionam o ambiente na blogosfera tupiniquim. Será que o campeão da F3 e da F2 não vai arranjar nada na F1? É um animal diferente? Vai flopar? Ir para a Indy?

Se não ganha, não presta. Já sabemos como a coisa funciona e a banda toca. Acham que estar atrás de Hulk é demérito. Bortoleto é o segundo piloto da parada e está evoluindo de forma nítida. A diferença são as estratégias e o ritmo de corrida, que o brasileiro está melhorando aos poucos. Ninguém desaprende a dirigir.

A F1 está cheia de exemplos de talentos da base que não viraram o que se imagina. Provavelmente Bortoleto estará nessa lista. Afinal, se não for campeão, já terá o carimbo de fracassado dos brasileiros.

Que todos consigam ver o talento que Fernando Alonso vê nele há anos. Que os primeiros pontos da carreira (e também do Brasil no grid desde 2017) deem mais tranquilidade para Bortoleto realizar seu trabalho e seguir evoluindo na carreira.

Afinal, não é por acaso que Piastri e Bortoleto conquistaram o que conquistaram e chegaram aonde estão. Não é por acaso.

Até!

quinta-feira, 10 de julho de 2025

A PERESTROIKA TAURINA

Foto: Getty Images

Fim de uma era. Christian Horner não é mais o chefão da Red Bull. Como em quase tudo nessa organização, a saída de cena foi a pior e mais fria possível. Tudo bem, o clima por lá está horrível há anos, mas o mundo dos negócios (ou da vida) é assim mesmo: você é lembrado pela última corrida.

Claro, Horner não saiu em virtude disso somente. É um acúmulo de problemas internos e que viraram públicos na Red Bull. Desde o escândalo do assédio a uma funcionária da equipe e a briga com Helmut Marko pelo controle do time após a morte de Dietrich Mateschitz. Quem mantinha Christian por lá eram os acionistas tailandeses. A julgar pelo que aconteceu, a queda de braço foi vencida pelo caolho.

A principal jogada pode ter sido feita pelo maior apoiador que um homem pode ter a essa altura do campeonato: Max e a família Verstappen. É nítido e notório que Max defende Marko, que o trouxe para a F1 ainda garoto. O pai, Jos, nem se fala. Se a escalada de acontecimentos pareciam ter chegado ao ápice anteriormente, por que a mudança abrupta, justo agora?

Se tratando de Red Bull, não é surpresa o modus operandi. Esqueça a subida de Lawson, a chegada de Hadjar em detrimento de Colapinto e a tentativa de comprar o time às escondidas depois da morte do Mateschitz. Algo bem simples surge como fato novo em 2025. O contrato e o futuro de Verstappen.

O holandês pode escolher o que fazer. Pela claúsula de desempenho, desse jeito ele pode sair da Red Bull ainda no fim do ano, mesmo com contrato longo. A imprensa europeia andou veiculando com veemência na semana passada uma possível aproximação com a Mercedes, que o sonda e namora há tempos.

Diante da iminente perda, era hora do último truque: tirar o chefe que Verstappen e o pai não suportam e passar tudo para o comando do amigo e aliado Helmut Marko. Ignore que ele é um senhor de idade avançada. Tirar Horner de cena, ignorando os 20 anos de sucesso com o time que ele criou, é o último recurso para a esperança da Red Bull ser, de fato, do jeito que Verstappen e seus aliados querem.

Talvez isso não seja o suficiente. E se Max se cansar do ambiente e optar por algo novo? Há a fadiga dos metais. Lembrem-se: a saída de Horner não é caso isolado. Newey e Wheatley, figuras fundamentais, também já tinham deixado a Red Bull. Sinal de como as coisas andam por lá? Pode ser que sim, pode ser que não, mas não é coincidência a queda da hegemonia da equipe, mesmo justificando o foco no ano que vem.

Pode ser que esse movimento não seja o suficiente para convencer Verstappen. Talvez ele tenha percebido que, para ser campeão, é necessário sair e, hoje, os taurinos não oferecem aquilo que ele quer, além da saída de Horner, é claro.

Laurent Mekies, que era o chefão da satélite Racing Bulls, vira o novo chefe de equipe. Como consequência, Alan Permane o substitui no time B da Red Bull. Ainda acredito que um Vettel vai voltar para ser consultor. A Red Bull precisa de referências porque o time está ficando sem elas e pode estar em vias de perder a principal de sua história, além de Horner, é claro.

Assim, de forma melancólica, chega ao fim a era de um dos chefes de equipe mais poderosos pós Ron Dennis, Briatore e Frank Williams. Ele certamente voltará. Estejamos atentos. Horner é capaz de voar sem precisar de energéticos.

Até! 
 

segunda-feira, 7 de julho de 2025

O FIM DA PRISÃO

 

Foto: Getty Images

O contexto vocês já sabem. Quando ainda tinha uma frequência diária por aqui, escrevi que, provavelmente, Hulkenberg na ainda Sauber era o mesmo que a gente aguardar o meteoro chegar por aqui.

Ele é o cara que menos tem a ver com a categoria e o que ela se tornou. Escrevi sobre isso em 2023. "Velho", sem academia de pilotos ou um patrocinador bancando, o tempo de Hulk parecia ter batido. Equipes e chances não faltaram. Azares e outras coisas resumiram a carreira desse competente piloto no "o cara sem pódios".

Enquanto escrevia isso, a ficção e a realidade se misturam de formas incríveis. Em meio a exibição da superprodução da Apple, fiquei pensando em como um filme, muito bem feito, tem suas nuances de pastelão e histórias não críveis. Para o cinema, é mais do que necessário. Afinal, sem a fantasia, qual o interesse em fazer um filme?

Brad Pitt, ou melhor, Sonny Hayes, mostram que algumas histórias podem não ser tão fantasiosas, por mais que o clichê da volta por cima de um underdog seja irresistível. É tiro e queda, é o arroz com feijão bem feito, bem temperado.

O alemão que prometia tanto nas categorias de base chega na F1, faz um barulho razoável, mas falha em dar o grande passo. Sempre fica no quase. É consistente, mas quando as coisas fogem do controle, ele desaparece. O tempo passa, os cavalos também e ele perde o bonde da história. Mais um bom piloto que, sem os números, acaba esquecido e até julgado de forma equivocada e injusta. A história é feita pelos vencedores.

Por isso uma certa desconfiança, ainda mais da geração drive to survive, quando Hulk finalmente volta para a categoria para guiar a Haas, até então o pior carro que ele guiou na carreira. Os mais jovens talvez não lembrem, mas Hulk fez chover naquela Sauber de 2013, a saudosa Sauber preta.

Mal saberíamos o que estava por vir. O piloto velho, que chamei de Roberto Pupo Moreno por ser um super trunfo na pandemia, tinha a última chance, que virou penúltima. Da Haas, uma aposta na Audi, ainda Sauber, pensando no futuro e o último capítulo da carreira.

"Igual aquele filme ou série que teve a continuação que não pediu, vamos ter um novo capítulo de Hulk na F1, o injustiçado, o melhor piloto que nunca pegou um pódio na história. Quem sabe o destino não está guardando algo para ele, tal qual fez com Baltazar e surpreendeu K-Mag em São Paulo?

O bonde passou, mas voltou. Hulk está a bordo."

Escrevi isso em 2022. Hulk mostrou hoje que a fábula de Sonny Hayes escrita por Hollywood não é uma hipérbole tão exagerada. O loiro galã, que teve os resultados que se esperava e tinha virado chacota ou desconfiança, vai para o pior carro do grid ao lado de um garoto promissor, que venceu a F3 e a F2 em sequência.

O carro de 2025 é um caso perdido, pois o foco está em 2026, quando a Audi vira Sauber. Cuidado, pois os suíços ainda estão no comando. 

A história vocês viram hoje: largando em penúltimo, com um dos piores carros, só uma corrida maluca poderia transformar o limão em limonada.

O destino finalmente começou a sorrir para o alemão. Em 2025, a competência dele também teve altas dosagens de sorte. Isso explica os pontos conquistados na Austrália e na Espanha, principalmente. Hoje, a pena tinha chegado ao fim.

Com a estratégia correta e, claro, a sorte que lhe faltou em 14 anos, o flerte com o pódio virou realidade. Não era mais piada. Hoje, Hulkenberg entrou para a história. Não é um pódio qualquer. É um pódio depois de 239 corridas, várias equipes, desilusões, anos ausente e com um carro que não é dos melhores. 

Nenhum desses ingredientes são inéditos na categoria, mas só Hulk consegue juntar todos esses contextos. Acrescente um detalhe maravilhoso: hoje, tivemos uma vitória da F1.

Escrevi também, em 2023, que Hulk era o último journeyman de uma categoria que não pertence mais a ele ou ao olhar que fui moldado, por exemplo. Numa era de jovens pilotos, drive to survive, academia de pilotos e pagantes bilionários, ver um cara que virou "lado B" atingir o auge justamente quando virou o patinho feio é uma vitória do automobilismo de verdade, que agora está em um caminho irreversível de se tornar apenas história. 

Hulk é o que sobrou desse romantismo. Claro que não considero os campeões quarentões porque eles são, justamente, campeões. Nico é a raridade entre os raros. Só isso importa.

Precisava voltar ao velho hábito por ele, por mim e pela F1. 

6 de julho de 2025: o dia que a prisão de Hulkenberg acabou. O sonho, agora, estava livre para voar.

Dino Viola, presidente da Roma quando a equipe venceu o bicampeonato italiano depois de 41 anos, falou mais ou menos isso, em trecho para o novo livro de Lorenzo Latini intitulado "Roma Scudetto - No porto com a bandeira", o que resume este momento:

"Esta conquista nos permite escapar da prisão do sonho. Chega de gaiolas ou grades: somos livres para viver este sonho e aproveitá-lo. Porque não há alegria maior do que acordar e perceber que aquele doce sonho finalmente é realidade."

Até!


sexta-feira, 16 de maio de 2025

A VELHA RAPOSA

 

Foto: Getty Images

Ele nunca esteve fora da F1, a verdade é essa. Flavio Briatore sempre foi o agente de Alonso e, na verdade, manteve seus tentáculos de forma somente mais discreta, digamos assim.

O banimento eterno, na verdade, foi uma suspensão para os europeus verem. Se Pat Symonds continuou na categoria e até trabalhou com a vítima Felipe Massa, o que teria de tão educativo em deixar de fora da mesa um dos caras mais poderosos do automobilismo em 30 anos? 

Ok, com a saída de cena, Christian Horner e Toto Wolff viraram os protagonistas porque agora Red Bull e Mercedes dão as cartas. Não acredito que Flavio seria um sucessor de Max Mosley ou Jean Todt, mas poderia ser considerado se ele quisesse. Um dos rivais virou o administrador da categoria: Stefano Domenicali. Só Ron Dennis saiu, mesmo.

Ano passado, o ensaio para o retorno oficial veio com a alcunha de "consultor", nome meramente vago para quem pode fazer tudo. Briatore sempre fez tudo. Mandava nos chefes e nos pilotos, agenciava uns e tratava outros como inimigos, desde Schumacher até Jarno Trulli, Nelsinho Piquet, Romain Grosjean e...

... E agora Franco Colapinto. O palco? A eterna Benetton, digo, Renault, digo Alpine. Uma crise que dura desde o retorno da montadora como equipe e que ceifou diversos dirigentes e chefes de equipe. Para Ímola, uma novidade: Oliver Oakes, o então chefão, se demitiu alegando "questões pessoais".

Quem chegou em seu lugar? Flavio Briatore. O novo velho chefe de equipe, não mais consultor da Benetton/Renault/Alpine. Habemus chefe! The Old Boss ou "Il Vecchio Capo". Dias depois, a especulação é Oakes se demitiu após o irmão William, seu sócio na empresa Hitech, foi preso acusado de "transferência de propriedade criminosa".

Se foi demitido ou não, se saiu por questões pessoais ou foi convidado a se retirar, o fato é que a velha raposa está de volta com os velhos poderes de sempre. Nesse caso, o cachorro velho não precisa de novos truques. Coincidência ou não, o piloto da academia da equipe, que assinou contrato para a F1 antes da chegada de Briatore, saiu.

Jack Doohan. Não era segredo. Todo mundo sabia desde o início que o filho do multicampeão de Moto GP tinha um contrato curto e seria substituído pelo argentino Franco Colapinto, que encantou Briatore e é o novo protegido da vez do italiano. Sem espaço na Williams e sem acordo na Red Bull, o argentino só precisava de um empurrãozinho para chegar em uma das vagas disponíveis. O empurrão veio através de questões pessoais ou prisões, mas tá lá.

O que esperar do novo parceiro de equipe de Pierre Gasly? A Alpine é uma bagunça há anos e todo mundo aguarda 2026. É verdade que Doohan não conseguiu mostrar muito, mas ser um novato que cai de pára-quedas é bem prejudicial, pois não há tempo e testes para se provar. Colapinto teve impressão positiva ao andar junto com Albon, mas também se acidentou bastante.

Em tese, ele também tem cinco etapas para mostrar algo e ser avaliado para permanecer ou não. Sendo um piloto de Briatore e chefiado pelo mesmo, desempenho não vai ser um grande drama, seja pela adaptação ou o contexto da equipe. Afinal, o que Alpine almeja para a nova era da F1?

A única resposta que sabemos é que a velha raposa irá continuar dando as cartas na França e em Enstone.

Até!