terça-feira, 9 de dezembro de 2025

O ESCOLHIDO

 

Foto: Getty Images

 

O campeonato mais longo da história não vai premiar injustiça. Quer dizer... nenhum campeonato é justo. Na verdade é o contrário. Quanto maior o campeonato, mais possível é errar. O acúmulo de erros pode definir um campeonato.

Em um calendário menor, erros são muito mais fatais. Esse campeonato teve uma mistura de 1999 com 1996 e 1997. Muitos erros em um calendário lotado, onde na maior parte do tempo dois pilotos da mesma equipe disputavam o título com um azarão quase fazendo história, que também só perdeu porque errou.

Todos erram. Raras são as temporadas perfeitas. De cabeça, dá pra lembrar de Vettel, Schumacher, Hamilton, Verstappen. O desfecho do campeonato não foi sobre quem errou mais ou menos. Qualquer narrativa pode ser válida.

Piastri errou na Austrália, bateu em Baku e sumiu na reta final. Norris bateu no Canadá e teve o motor estourado na Holanda. Verstappen bateu em Russell na Espanha, foi atropelado por Antonelli na Áustria e se viu na turbulência do fim da era Horner até a metade do campeonato, quando se deu conta de que poderia sonhar com a taça.

Ganhou o melhor carro. Parece pleonasmo ou alguém que descobriu a pólvora, mas em 2025 é um fato. O melhor piloto da temporada não foi campeão. Em 2012 não foi, em 2016 não foi também e tantos outros exemplos.

O grande mérito de Lando Norris foi crescer no pior momento, o chamado clutch pós-Holanda, quando tudo parecia se encaminhar para Piastri. O australiano deu uma de Webber (seu empresário) ou de Alonso contra Vettel? A única pulga atrás da orelha é tentar compreender como alguém que quase foi irrepreensível até Baku virou um Irvine no momento mais decisivo do certame.

Méritos para Norris, que foi um Hakkinen de 1999. Campeão “culposo”. Errou, mas brilhou quando poderia e quando precisava. Aliás, uma terrível coincidência, sempre ela: o cara simplesmente já é o que mais correu pela McLaren na história. Fruto de longas temporadas, os números evaporam com nossa tendência saudosista de proteger nosso passado perfeito.

Escrevi aqui, em 2017, para ficarmos de olho em Lando. Pois bem, o título veio quase uma década depois. Mesmo assim, não parece ser o melhor da atual geração. Excluindo Max, vejo Charles e Russell com mais ferramentas, mais completo. Norris tem o principal: o carro.

O trunfo é de Zak Brown. Há dez anos, o grande momento da McLaren no ano era Alonso brincar de cameraman em Interlagos depois do motor Honda pifar e ser alvo de chacota por anos. A reestruturação veio junto com o retorno do papaya, culminando no 13° título de pilotos da história, 17 anos depois daquele título de Hamilton em Interlagos, sempre no detalhe.

Quem aproveita a chance entra para a história. Não sabemos o que o novo regulamento nos aguarda. Alguém se importa com a carreira de Jacques Villeneuve depois de 1997? Pois bem...

Agora a pressão está em Piastri. Será que ele reage ou fica oficializado como o David Coulthard/Mark Webber da nossa geração? Em talento, é muito superior a ambos. Tem condições de personalidade e de política interna para ambicionar algo a mais? Só o tempo irá responder.

O bicho papão foi domado pelos problemas do próprio time. Nunca é demais para reiterarmos: jamais duvidar de Max Verstappen, aquele que consegue ter uma temporada maior quando é vice do que em 2023. É assim que os campeões são feitos, respeitados e imortalizados na memória dos fãs.

Aguardemos o que 2026 e a nova era da F1 tem a nos oferecer. 22 carros na pista é um sinal positivo. Só falta voltar com Sepang e eliminar 95% desses circuitos de rua horríveis, tirar o protagonismo de Abu Dhabi e diminuir o calendário de março para outubro. Corrida demais torna algumas etapas altamente dispensáveis até para o curso do campeonato.

Parabéns para o escolhido de Zak Brown há quase uma década: a Inglaterra e a McLaren tem um novo campeão do mundo.

Até!


segunda-feira, 15 de setembro de 2025

OS CARAS CERTOS

 

Foto: Divulgação

Na semana passada, a Cadillac anunciou a primeira dupla de pilotos da história da equipe, que irá estrear na F1 em 2026. O resultado é óbvio e não surpreende ninguém, mas ainda assim há um certo choro patriótico.

Bottas e Pérez, os dois veteranos que ficaram a pé neste ano, foram os escolhidos. A justificativa é mais do que óbvia: em um novo regulamento e com uma equipe novata, onde tudo é novidade, ter dois pilotos experientes e acostumados com o topo será primordial para a ambientação na F1. Eles sabem o que fazer e o que não fazer para serem competitivos.

Em uma categoria onde há pouco espaço para testes, experiência é fundamental. Junta-se a situação de uma equipe criada do zero e temos a fórmula perfeita. A realidade sempre bate a porta. Lembram que a ideia inicial era colocar um piloto americano entre os titulares? Bom, isso só será possível mais adiante se a Cadillac se desenvolver bem nesse tanque de tubarões.

A úlitma estreante foi a Haas, há dez anos. A fórmula não foi diferente, pelo contrário. Eles escolheram Grosjean e Gutiérrez. Ok, o mexicano veio pela grana também (assim como Pérez) e porque na época era piloto Ferrari (até hoje a Haas tem parceria técnica com os italianos; Bearman estar lá não é por acaso também).

Não sei porque, mas lembro de quando Caterham, HRT e a Virgin estrearam lá por 2010, onde eram tão lentos que eram considerados outra categoria. Confesso ter esse temor que aconteça com os americanos. No pior dos casos, Pérez e Bottas estão acostumados também com esses momentos.

A chiadeira é pela busca de novatos ou jovens talentos. Em tese, uma nova equipe possibilita mais duas vagas que o mundo de pilotos com patrocinadores e academias de pilotos dificultam a presença de um Hulkenberg da vida. Aqui, fazem uma campanha descabida querendo que o Drugovich tivesse a vaga. Sejamos sinceros: até o Mick Schumacher teria mais chance.

Não sou hater. É preciso somente entender o óbvio: por que alguém que foi campeão de um grid esvaziado em 2022 no terceiro ano na categoria depois de apanhar do Zhou (que foi convidado a se retirar da F1) teria chances se, desde então, não correu em mais nada? É preciso aceitar: o timing de Drugovich passou, infelizmente. Se algum novato merecesse chance, hoje em dia, um nome muito mais aceitável e coerente seria o Leonardo Fornaroli, campeão da F3 em 2024 e atual líder da F2, repetindo o que Oscar Piastri e Gabriel Bortoleto fizeram.

A Cadillac escolheu os caras certos para começar a empreitada na F1. Se vai dar certo ou não, só o futuro dirá.

Até!

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

É PROIBIDO COMPETIR

 

Foto: Getty Images

Certas coisas são inevitáveis em um ambiente que, embora coletivo enquanto equipe, é estritamente individual, individualista e egoísta: a disputa de título.

A história não mente. Ao longo das décadas, vimos rivalidades lendárias, grande parte delas oriundas da própria equipe. Em muitas, amizades foram desfeitas e rivalidades viscerais entraram para a história. Eu sei em quais delas você está pensando.

A McLaren 2025 é a busca pelo inevitável. Carro dominante, dois pilotos protagonizando ponto a ponto o certame. É inevitável certas faíscas. Norris quase bateu em Piastri no Canadá e o que vimos foi alguém constrangido por querer tentar. 

O que vimos em Monza é a antítese do esporte. É a McLaren se intrometendo ao dizer que "não vai se intrometer". Quer deixar a disputa na pista, mas faz exigências para isso acontecer. A culpa não é só deles, claro.

Ninguém quer ser o vilão ou o primeiro a partir para o conflito. Imagem é tudo, né? Norris e Piastri se sentem confortáveis, querendo ser as vítimas. Nem parecem que estão disputando um campeonato mundial que, com o novo regulamento, talvez seja a única oportunidade, o único cavalo encilhado da vida de ambos.

Não é um pedido para a irracionalidade, a guerra ou a agressões, mas a equipe e os pilotos precisam querer competir. Quando a McLaren erra no pit stop do coleguinha, o "beneficiado" não tem nada a ver com isso. Pararam Norris antes porque quiseram, ninguém os obrigou.

Quando Lando abandonou na semana passada, por lógica, a equipe deveria mandar Piastri abandonar também? Afinal, o australiano ganharia uma vantagem fundamental graças a um "erro" ou "problema" que Lando não pode controlar. Seria injusto, afinal. Imagina se isso decide o campeonato?

A equipe pode pedir, perguntar ou exigir o que quiser. O problema é a personalidade do piloto aceitar. Há vários motivos para isso, mas, olhando de fora, parece que falta gana e o apego a imagem de bonzinho ou "ganhar com ética", como se beneficiar de um erro alheio fosse um problema moral ou ausência de caráter.

Pode ser que, no futuro, isso não faça diferença para Piastri, mas e Norris? Vai tentar algo diferente nessa reta final de campeonato? Alguém acha que um Piquet, Lauda, Prost, Clark, Fangio, Senna, Hamilton, Vettel, Schumacher, Alonso ou Hamilton fariam o mesmo? A risada de Max no rádio é a resposta emblemática.

Parece que, em 2025, ninguém quer ser campeão. Para a McLaren, tanto faz como tanto fez, mas os pilotos precisam querer mais. Até quando essa falsa camaradagem vai prevalecer? Todo mundo quer ver uma briga visceral e não excesso de fair play. 

Alguém vai precisar se sujar. Pode ser a única chance da carreira de ambos indo para o espaço.

Até!

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

DIVISOR DE ÁGUAS?

 

Foto: Reprodução

Quando Lando Norris se equivocou, quase bateu em Oscar Piastri e acertou o muro dos boxes na reta final do circuito Gilles Villeneuve, por um minuto eu pensei: agora temos um campeonato.

Afinal, era o que precisava para acabar com aquele clima de camaradagem. São dois jovens pilotos, de muito talento e destinados desde sempre ao protagonismo, brigando pela glória máxima da F1. Eles não têm concorrentes. Apenas um ao outro, como sempre são os vizinhos de box, amplificados pela taça e a eternidade no horizonte.

Uma história semelhante com Hamilton e Rosberg. O título estremeceu eternamente uma relação amigável de infância, começando pelos incidentes de 2014. Ok, Piastri e Norris não são tão íntimos desde a tenra idade, mas há uma escalada de acontecimentos que atropelam boas intenções e relacionamentos.

Dá para lembrar de outros casos notórios do passado, que incluem obviamente Senna x Prost e os finais trágicos de Gilles Villeneuve e Didier Pironi na Ferrari.

É indiscutível que Norris se precipitou e tentou uma ultrapassagem impossível em um espaço inexistente. Erro de leitura provocado pela pressão? Talvez. Sempre vamos jogar com a obra pronta e os pontos na mesa. Lando está sentindo a responsabilidade.

Ele sempre foi a nova joia da McLaren, antes mesmo antes de chegar na F1, como mencionei por aqui há alguns bons anos. Ele tem a chance que o saudoso Vandoorne não teve, por exemplo. Nos dois primeiros anos, dominou o ainda não totalmente ambientado colega australiano.

Piastri também carrega um peso e uma pressão. Um cara que vence F3 e F2 em sequência é um talento raro, mas que poderia ter jogado tudo para fora ao romper com a Renault e conseguir, judicialmente, a vaga para a McLaren. Melhor projeto e um assento competitivo em vista. Por outro lado, estava entrando em um ambiente feito sob medida para Lando brilhar quando os papayas estivessem prontos.

E começaram a ficar ano passado. Ambos ensaiaram as primeiras vitórias, que virou um título de construtores que faltava desde os tempos de Ron Dennis, Hakkinen e Coulthard. Guardem esses nomes.

Zak Brown nunca escondeu a preferência por Norris. Talvez alguns não saibam, mas o pai de Lando tem muito dinheiro. Aporte não falta para McLaren, mas não é justo e nem correto dizer que o britânico só está lá por isso, muito pelo contrário.

Uma equipe traumatizada por Alonso e Hamilton, há quase 20 anos, certamente pensaria em “levar os meninos para casa” ao invés de fomentar uma briga no fim da corrida. A McLaren, apesar de já virtualmente campeã de construtores outra vez, fomentou a rivalidade, ou “sem preferências”. Nenhum dos dois pilotos aceitaria, obviamente. O resultado foi esse. Afobação e falta de controle.

A faísca é inevitável. Esporte de alto rendimento que é em equipe e individual ao mesmo. Ego e talento de pilotos nascidos e acostumados com o número um e os louros da vitória e do protagonismo.

Eu imaginei que Norris, mesmo equivocado, daria uma de Verstappen: ou minimizaria o erro, culparia a equipe ou abriria guerra pública com Piastri. Mesmo atrás na tabela, ele é o britânico do time. A pressão bateu em Lando. Dominou em duas temporadas de ambientação de Oscar. Agora que vale um brilho (ou melhor, o título), começa a sentir o incômodo de ver o protagonismo escorrendo das mãos e batendo no muro.

Ele fez o que se esperava de sua personalidade: colocou panos quentes na hora, se culpou e se desculpou com Piastri e a equipe pela “manobra idiota”. Sim, foi pouco inteligente, de fato, mas Norris também não precisa entregar mais pontos dos que os 10 que ele perdeu no Canadá e os 22 que Oscar abriu em uma decisão equivocada.

A McLaren também reforçou o erro do pupilo e, nos últimos dias, salientou uma preocupação: como Norris irá reagir a isso nas próximas corridas.

É verdade, falta muito campeonato pela frente. Quebras, erros, acertos e desencontros acontecem. Até aqui, Piastri parece mais centrado, equilibrado, consistente e menos propenso a erros e disputas que podem lhe custar pontos para o título.

Com a vantagem, mesmo que mínima, a tendência é que cada vez menos corra esses riscos, seja com Norris, Verstappen, Russell ou qualquer outro que esteja no caminho. Em uma briga pelo campeonato, é preciso olhar para o todo, para dezembro.

Talvez não tenhamos uma grande rivalidade visceral. A verdade é que isso foi um grande golpe para Lando, confirmado pelo mesmo e pela equipe.

A expectativa era para termos um Alonso x Hamilton ou um Hamilton x Rosberg.

No universo da McLaren, pode ser que o terreno se desenhe para que Zak Brown, Piastri e Norris sejam, respectivamente, Ron Dennis, Hakkinen e Coulthard, trinta anos depois.

A diferença, é claro, é que na época não havia brigas e todos sabiam o seu papel. Ron Dennis, no caso, era admirador incondicional do bicampeão, enquanto Zak escolheria, se pudesse, Lando para ser o rosto da equipe e do título que irá chegar para Woking depois de 17 anos.

No entanto...

Quando o motor da McLaren de Lando Norris estoura faltando poucas voltas para o fim do GP da Holanda, ele perde o segundo lugar (que já era ruim) e vê Oscar Piastri abrir mais 25 pontos de vantagem no campeonato, eu pensei: agora, ainda temos um campeonato.

Até!

terça-feira, 12 de agosto de 2025

A DERROTA INEVITÁVEL

 

Foto: Getty Images

Valorizamos a honestidade brutal, mas é difícil quando ela vai de encontro com as nossas crenças ou opiniões. Quando se chamou de inútil e que a Ferrari deveria procurar outro piloto, Hamilton foi extremamente sincero sobre o momento que vive na Ferrari nesses primeiros meses de equipe.

Isto é louvável. Um cara que compete em alto nível desde criança sem se eximir das responsabilidades impostas pelo trabalho e por ser, para muitos, o maior piloto da história. Por outro lado, há formas e formas dessa situação ser lidada. Que a cobrança e a frustração existem, sem dúvidas. Externar, dessa forma e publicamente, é que parece o problema.

Estamos lidando com imagem. Se o grande líder do projeto da maior equipe do mundo fala assim após uma sessão frustrante, qual a mensagem que isso passa para o público e os acionistas? Alesi e outras figuras importantes afirmaram que um Senna ou Schumacher jamais falariam isso dessa forma. Podem até sentir, mas não externar assim.

Não quero debater como alguém deve se manifestar porque é naturalmente ridículo e pretensioso. O que eu quero tentar aqui é entender o que se passa por trás desse tipo de manifestação. Isso vai muito além de um treino ruim, amplificado com a pole do companheiro. Sabemos disso.

Quem compete em alto nível sempre vai esperar excelência e vencer. Do contrário, não faz sentido se dedicar desta forma. Hamilton não precisa mais da F1 em qualquer dos aspectos assinalados: dinheiro, fama, poder, glória, etc. Por isso, a cobrança e frustração é genuína, principalmente quando é surpreendente no microfone para o mundo inteiro ver e ouvir.

Ao ser contratado para tirar a Ferrari da seca, Hamilton realiza um sonho de menino no último capítulo da carreira. É uma glória, mas também um peso. Ok, sabemos que Lewis passou por provações muito piores do que guiar e conseguir resultados em um esporte, mas o peso fica ainda maior para todo mundo que tenta repetir Schumacher.

Alonso e Vettel, os últimos campeões que chegaram, não conseguiram. Não existe combinação maior na transferência mais bombástica da F1 em quase 30 anos. Todos sabemos que o projeto é de longo prazo e o objetivo maior é a partir do ano que vem, quando o novo regulamento começa a entrar em vigor.

O problema começa quando as pessoas não entendem que Hamilton não está chegando na Ferrari no auge da carreira ou nos tempos de Schumacher onde era possível fazer testes ilimitados. A adaptação a um novo carro leva tempo, independentemente do talento ou da capacidade do piloto ser mais rápida e fácil ou mais lenta e difícil.

Do outro lado, não tem um Irvine ou um Barrichello, na figura de segundo piloto, por ali. É Charles Leclerc, no auge da carreira e com uma especialidade semelhante a de Hamilton: a volta lançada, não à toa o monegasco tem quase 30 poles na carreira sem ter um carro dominante. Por todo o contexto, não é um desafio fácil para Hamilton enfrentar o segundo companheiro de equipe mais difícil da carreira.

A grande questão que motiva o pensamento de Hamilton, externado de forma veemente após o qualyfing na Hungria, é que ele achou que seria fácil vencer Leclerc e ser dominante em um ambiente totalmente novo na carreira. Isso, certamente, vai levar tempo.

Hamilton e os fãs subestimaram não só Leclerc, mas um inimigo implacável: o tempo, a idade, o timing. Hamilton não está mais rápido do que no auge ou quando jovem. É inevitável perder décimos conforme o corpo desacelera, mesmo que os exercícios, a dedicação e a genética possam retardar ou esconder alguma coisa, mas os números são frios: é um piloto de 40 anos enfrentando outro de 27.

Vencer ou não Leclerc é possível e faz parte do jogo. No entanto, Hamilton precisa se acostumar com uma realidade triste para todos nós: ser derrotado por Leclerc, graças ao tempo. É inevitável.

Até!

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

O PRÓXIMO DA LISTA

 

Foto: Getty Images

O automobilismo brasileiro estava em um limbo até 2020, quando Felipe Drugovich começou a impressionar na F2 em meio a pandemia. Os frutos começaram a ser colhidos nos anos seguintes.

Se antes o Brasil não conquistava um título de fórmula em monoposto desde o Bruno Junqueira na F3000 em 2000, a nova safra deslanchou, começando com o próprio Drugovich. No entanto, os talentos que ali surgiam davam indícios e esperanças para uma nação ávida por um representante e, claro, um novo Senna para os saudosistas.

Já conhecemos a jornada de Gabriel Bortoleto e a ajuda de Alonso. O brasileiro, aliás, conquistou o melhor resultado na carreira e do Brasil em oito anos na F1. Hoje, vamos celebrar Rafael Câmara e o quarto título brasileiro em fórmulas em quatro anos. Estamos mal acostumados!

O pernambucano de 20 anos impressionou no kart a ponto de assinar com a academia da Ferrari antes de estrear nos monopostos, em 2021. Apenas nesta temporada é que o brasileiro chegou, depois de passar pelo FRECA, F4 e as competições de base do Oriente Médio, na F3. E foi uma temporada de gala.

Campeão com uma rodada de antecedência, Câmara repete o feito de estreantes do quilate do próprio Bortoleto, George Russell e Oscar Piastri a ser campeão como estreante. Bom frisar que seus adversários, apesar de serem mais jovens em termos de idade, são mais experientes na categoria. Ser campeão é ótimo. Conquistar a F3 com tamanha dominância se adaptando ao carro é impressionante.

As boas notícias não param por aí. Ao contrário de Bortoleto e Drugovich, Câmara já é apoiado por uma gigante desde muito cedo, quando observaram e captaram o talento do rapaz. Isso gera vantagens e atalhos. Obviamente, os resultados precisam acompanhar tudo isso, somada a pressão de "essere Ferrari". 

No ano que vem, Câmara já estará na F2, em equipe a ser anunciada. Sendo um piloto Ferrari, além do objetivo de chegar na equipe principal, a Haas é uma entrada interessante, sendo uma parceira dos italianos. Trajetória que o Bearman está seguindo. Estando na F2 e já com os pontos necessários para a superlicença, Câmara já poderia participar dos treinos livres. Para isso, a missão é continuar evoluindo no complicado grid da F2, que também terá um Fittipaldi alinhado para a próxima temporada.

Deixamos o futuro para o futuro. Agora, é comemorar porque não é todo ano que a safra brasileira conquista resultados tão importantes e entusiasmantes para o futuro no automobilismo mundial. O senso de vencer precisa estar mais aguçado principalmente para nós que não vimos "a era de ouro", no máximo o fim do apogeu com Barrichello e Massa.

Parabéns, Câmara!

segunda-feira, 28 de julho de 2025

NÃO É POR ACASO

 

Foto: XPB Images

É sempre bom lembrar que Oscar Piastri chegou como o rookie mais badalado e pressionado dos últimos tempos. Não é todo dia que alguém vence F3 e F2 de forma consecutiva. Há um período de adaptação ao migrar para a outra categoria, mas ele não sentiu isso. Também não é comum um cara com essas credenciais ter ficado um ano mofando na Alpine.

Também é incomum um novato colocar a equipe na justiça para assinar com a McLaren. Mesmo que tenha se saído vencedor, uma porta importante se fechou, embora outra tenha sido arrombada. Chegar na F1 com o peso dos títulos que chegou e a pressão de uma desgastante e estressante batalha judicial me levou a escrever sobre a pressão que o australiano carregava nos ombros.

Tudo isso se soma ao fato de chegar em uma equipe irregular e com um dono claro: Lando Norris. Não seria fácil. Outros talentos também chegaram com pompa de futuros protagonistas, mas naufragaram por estarem no lugar errado e na hora errada. Sim, sempre lembrarei de Stoffel Vandoorne por aqui.

Nos primeiros anos, o esperado aconteceu. Sem testes ilimitados, é preciso tempo para começar a andar próximo de quem está habituado. Piastri sofreu, mas ainda assim conseguiu sua primeira vitória na carreira. Ele e a McLaren cresceram na hora certa.

Isso seguiu. Na hora da pomada, a McLaren voltou a ser protagonista. De campeã de construtores, agora o título é mais do que realidade. O único rival é o vizinho da garagem. Piastri, agora, está mostrando porque foi disputado judicialmente, porque é campeão da F3 e da F2. Quando se adaptou e viu o que estava em jogo, está levando vantagem. Isso é um aspecto importante, sobretudo no mundo da F1 onde tudo é construído para um piloto e brigas internas não são sinônimo de coisas boas.

Na outra ponta do grid, Gabriel Bortoleto chegou com as mesmas credenciais. Campeão da F3 e da F2 em sequência. Tudo começou com um sonho, que foi virando realidade graças ao próprio talento e o apoio de um certo Fernando Alonso. Isso é mais importante que alguma academia de pilotos, talvez.

Justamente o mais talentoso da leva que subiu para a F1 ficou com a pior vaga, talvez justamente por não ser de nenhuma academia de pilotos. Estar na Sauber, cada vez mais Audi, é uma faca de dois gumes: sem possibilidade de pontuar, Bortoleto não seria muito exigido. Basta não errar, não bater e não ser tão inferior ao super experiente Nico Hulkenberg.

O pessoal esquece que Hulk sempre foi subestimado. Não a toa segue na categoria. Nunca precisou de grana para estar lá. Na F1, adaptação é tudo, conta mais que a idade. Bortoleto vai precisar de paciência que os brasileiros nunca terão. Só ano que vem ele estará inteiramente habituado a um carro de F1, considerando também os aspectos físicos.

O início e o senso espetacular de aproveitamento de Hulk já pressionam o garoto. “Pô, perdendo de lavada pra esse velho?” Ritmo inferior, azares e erros da equipe também tensionam o ambiente na blogosfera tupiniquim. Será que o campeão da F3 e da F2 não vai arranjar nada na F1? É um animal diferente? Vai flopar? Ir para a Indy?

Se não ganha, não presta. Já sabemos como a coisa funciona e a banda toca. Acham que estar atrás de Hulk é demérito. Bortoleto é o segundo piloto da parada e está evoluindo de forma nítida. A diferença são as estratégias e o ritmo de corrida, que o brasileiro está melhorando aos poucos. Ninguém desaprende a dirigir.

A F1 está cheia de exemplos de talentos da base que não viraram o que se imagina. Provavelmente Bortoleto estará nessa lista. Afinal, se não for campeão, já terá o carimbo de fracassado dos brasileiros.

Que todos consigam ver o talento que Fernando Alonso vê nele há anos. Que os primeiros pontos da carreira (e também do Brasil no grid desde 2017) deem mais tranquilidade para Bortoleto realizar seu trabalho e seguir evoluindo na carreira.

Afinal, não é por acaso que Piastri e Bortoleto conquistaram o que conquistaram e chegaram aonde estão. Não é por acaso.

Até!