segunda-feira, 8 de setembro de 2025

É PROIBIDO COMPETIR

 

Foto: Getty Images

Certas coisas são inevitáveis em um ambiente que, embora coletivo enquanto equipe, é estritamente individual, individualista e egoísta: a disputa de título.

A história não mente. Ao longo das décadas, vimos rivalidades lendárias, grande parte delas oriundas da própria equipe. Em muitas, amizades foram desfeitas e rivalidades viscerais entraram para a história. Eu sei em quais delas você está pensando.

A McLaren 2025 é a busca pelo inevitável. Carro dominante, dois pilotos protagonizando ponto a ponto o certame. É inevitável certas faíscas. Norris quase bateu em Piastri no Canadá e o que vimos foi alguém constrangido por querer tentar. 

O que vimos em Monza é a antítese do esporte. É a McLaren se intrometendo ao dizer que "não vai se intrometer". Quer deixar a disputa na pista, mas faz exigências para isso acontecer. A culpa não é só deles, claro.

Ninguém quer ser o vilão ou o primeiro a partir para o conflito. Imagem é tudo, né? Norris e Piastri se sentem confortáveis, querendo ser as vítimas. Nem parecem que estão disputando um campeonato mundial que, com o novo regulamento, talvez seja a única oportunidade, o único cavalo encilhado da vida de ambos.

Não é um pedido para a irracionalidade, a guerra ou a agressões, mas a equipe e os pilotos precisam querer competir. Quando a McLaren erra no pit stop do coleguinha, o "beneficiado" não tem nada a ver com isso. Pararam Norris antes porque quiseram, ninguém os obrigou.

Quando Lando abandonou na semana passada, por lógica, a equipe deveria mandar Piastri abandonar também? Afinal, o australiano ganharia uma vantagem fundamental graças a um "erro" ou "problema" que Lando não pode controlar. Seria injusto, afinal. Imagina se isso decide o campeonato?

A equipe pode pedir, perguntar ou exigir o que quiser. O problema é a personalidade do piloto aceitar. Há vários motivos para isso, mas, olhando de fora, parece que falta gana e o apego a imagem de bonzinho ou "ganhar com ética", como se beneficiar de um erro alheio fosse um problema moral ou ausência de caráter.

Pode ser que, no futuro, isso não faça diferença para Piastri, mas e Norris? Vai tentar algo diferente nessa reta final de campeonato? Alguém acha que um Piquet, Lauda, Prost, Clark, Fangio, Senna, Hamilton, Vettel, Schumacher, Alonso ou Hamilton fariam o mesmo? A risada de Max no rádio é a resposta emblemática.

Parece que, em 2025, ninguém quer ser campeão. Para a McLaren, tanto faz como tanto fez, mas os pilotos precisam querer mais. Até quando essa falsa camaradagem vai prevalecer? Todo mundo quer ver uma briga visceral e não excesso de fair play. 

Alguém vai precisar se sujar. Pode ser a única chance da carreira de ambos indo para o espaço.

Até!

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

DIVISOR DE ÁGUAS?

 

Foto: Reprodução

Quando Lando Norris se equivocou, quase bateu em Oscar Piastri e acertou o muro dos boxes na reta final do circuito Gilles Villeneuve, por um minuto eu pensei: agora temos um campeonato.

Afinal, era o que precisava para acabar com aquele clima de camaradagem. São dois jovens pilotos, de muito talento e destinados desde sempre ao protagonismo, brigando pela glória máxima da F1. Eles não têm concorrentes. Apenas um ao outro, como sempre são os vizinhos de box, amplificados pela taça e a eternidade no horizonte.

Uma história semelhante com Hamilton e Rosberg. O título estremeceu eternamente uma relação amigável de infância, começando pelos incidentes de 2014. Ok, Piastri e Norris não são tão íntimos desde a tenra idade, mas há uma escalada de acontecimentos que atropelam boas intenções e relacionamentos.

Dá para lembrar de outros casos notórios do passado, que incluem obviamente Senna x Prost e os finais trágicos de Gilles Villeneuve e Didier Pironi na Ferrari.

É indiscutível que Norris se precipitou e tentou uma ultrapassagem impossível em um espaço inexistente. Erro de leitura provocado pela pressão? Talvez. Sempre vamos jogar com a obra pronta e os pontos na mesa. Lando está sentindo a responsabilidade.

Ele sempre foi a nova joia da McLaren, antes mesmo antes de chegar na F1, como mencionei por aqui há alguns bons anos. Ele tem a chance que o saudoso Vandoorne não teve, por exemplo. Nos dois primeiros anos, dominou o ainda não totalmente ambientado colega australiano.

Piastri também carrega um peso e uma pressão. Um cara que vence F3 e F2 em sequência é um talento raro, mas que poderia ter jogado tudo para fora ao romper com a Renault e conseguir, judicialmente, a vaga para a McLaren. Melhor projeto e um assento competitivo em vista. Por outro lado, estava entrando em um ambiente feito sob medida para Lando brilhar quando os papayas estivessem prontos.

E começaram a ficar ano passado. Ambos ensaiaram as primeiras vitórias, que virou um título de construtores que faltava desde os tempos de Ron Dennis, Hakkinen e Coulthard. Guardem esses nomes.

Zak Brown nunca escondeu a preferência por Norris. Talvez alguns não saibam, mas o pai de Lando tem muito dinheiro. Aporte não falta para McLaren, mas não é justo e nem correto dizer que o britânico só está lá por isso, muito pelo contrário.

Uma equipe traumatizada por Alonso e Hamilton, há quase 20 anos, certamente pensaria em “levar os meninos para casa” ao invés de fomentar uma briga no fim da corrida. A McLaren, apesar de já virtualmente campeã de construtores outra vez, fomentou a rivalidade, ou “sem preferências”. Nenhum dos dois pilotos aceitaria, obviamente. O resultado foi esse. Afobação e falta de controle.

A faísca é inevitável. Esporte de alto rendimento que é em equipe e individual ao mesmo. Ego e talento de pilotos nascidos e acostumados com o número um e os louros da vitória e do protagonismo.

Eu imaginei que Norris, mesmo equivocado, daria uma de Verstappen: ou minimizaria o erro, culparia a equipe ou abriria guerra pública com Piastri. Mesmo atrás na tabela, ele é o britânico do time. A pressão bateu em Lando. Dominou em duas temporadas de ambientação de Oscar. Agora que vale um brilho (ou melhor, o título), começa a sentir o incômodo de ver o protagonismo escorrendo das mãos e batendo no muro.

Ele fez o que se esperava de sua personalidade: colocou panos quentes na hora, se culpou e se desculpou com Piastri e a equipe pela “manobra idiota”. Sim, foi pouco inteligente, de fato, mas Norris também não precisa entregar mais pontos dos que os 10 que ele perdeu no Canadá e os 22 que Oscar abriu em uma decisão equivocada.

A McLaren também reforçou o erro do pupilo e, nos últimos dias, salientou uma preocupação: como Norris irá reagir a isso nas próximas corridas.

É verdade, falta muito campeonato pela frente. Quebras, erros, acertos e desencontros acontecem. Até aqui, Piastri parece mais centrado, equilibrado, consistente e menos propenso a erros e disputas que podem lhe custar pontos para o título.

Com a vantagem, mesmo que mínima, a tendência é que cada vez menos corra esses riscos, seja com Norris, Verstappen, Russell ou qualquer outro que esteja no caminho. Em uma briga pelo campeonato, é preciso olhar para o todo, para dezembro.

Talvez não tenhamos uma grande rivalidade visceral. A verdade é que isso foi um grande golpe para Lando, confirmado pelo mesmo e pela equipe.

A expectativa era para termos um Alonso x Hamilton ou um Hamilton x Rosberg.

No universo da McLaren, pode ser que o terreno se desenhe para que Zak Brown, Piastri e Norris sejam, respectivamente, Ron Dennis, Hakkinen e Coulthard, trinta anos depois.

A diferença, é claro, é que na época não havia brigas e todos sabiam o seu papel. Ron Dennis, no caso, era admirador incondicional do bicampeão, enquanto Zak escolheria, se pudesse, Lando para ser o rosto da equipe e do título que irá chegar para Woking depois de 17 anos.

No entanto...

Quando o motor da McLaren de Lando Norris estoura faltando poucas voltas para o fim do GP da Holanda, ele perde o segundo lugar (que já era ruim) e vê Oscar Piastri abrir mais 25 pontos de vantagem no campeonato, eu pensei: agora, ainda temos um campeonato.

Até!

terça-feira, 12 de agosto de 2025

A DERROTA INEVITÁVEL

 

Foto: Getty Images

Valorizamos a honestidade brutal, mas é difícil quando ela vai de encontro com as nossas crenças ou opiniões. Quando se chamou de inútil e que a Ferrari deveria procurar outro piloto, Hamilton foi extremamente sincero sobre o momento que vive na Ferrari nesses primeiros meses de equipe.

Isto é louvável. Um cara que compete em alto nível desde criança sem se eximir das responsabilidades impostas pelo trabalho e por ser, para muitos, o maior piloto da história. Por outro lado, há formas e formas dessa situação ser lidada. Que a cobrança e a frustração existem, sem dúvidas. Externar, dessa forma e publicamente, é que parece o problema.

Estamos lidando com imagem. Se o grande líder do projeto da maior equipe do mundo fala assim após uma sessão frustrante, qual a mensagem que isso passa para o público e os acionistas? Alesi e outras figuras importantes afirmaram que um Senna ou Schumacher jamais falariam isso dessa forma. Podem até sentir, mas não externar assim.

Não quero debater como alguém deve se manifestar porque é naturalmente ridículo e pretensioso. O que eu quero tentar aqui é entender o que se passa por trás desse tipo de manifestação. Isso vai muito além de um treino ruim, amplificado com a pole do companheiro. Sabemos disso.

Quem compete em alto nível sempre vai esperar excelência e vencer. Do contrário, não faz sentido se dedicar desta forma. Hamilton não precisa mais da F1 em qualquer dos aspectos assinalados: dinheiro, fama, poder, glória, etc. Por isso, a cobrança e frustração é genuína, principalmente quando é surpreendente no microfone para o mundo inteiro ver e ouvir.

Ao ser contratado para tirar a Ferrari da seca, Hamilton realiza um sonho de menino no último capítulo da carreira. É uma glória, mas também um peso. Ok, sabemos que Lewis passou por provações muito piores do que guiar e conseguir resultados em um esporte, mas o peso fica ainda maior para todo mundo que tenta repetir Schumacher.

Alonso e Vettel, os últimos campeões que chegaram, não conseguiram. Não existe combinação maior na transferência mais bombástica da F1 em quase 30 anos. Todos sabemos que o projeto é de longo prazo e o objetivo maior é a partir do ano que vem, quando o novo regulamento começa a entrar em vigor.

O problema começa quando as pessoas não entendem que Hamilton não está chegando na Ferrari no auge da carreira ou nos tempos de Schumacher onde era possível fazer testes ilimitados. A adaptação a um novo carro leva tempo, independentemente do talento ou da capacidade do piloto ser mais rápida e fácil ou mais lenta e difícil.

Do outro lado, não tem um Irvine ou um Barrichello, na figura de segundo piloto, por ali. É Charles Leclerc, no auge da carreira e com uma especialidade semelhante a de Hamilton: a volta lançada, não à toa o monegasco tem quase 30 poles na carreira sem ter um carro dominante. Por todo o contexto, não é um desafio fácil para Hamilton enfrentar o segundo companheiro de equipe mais difícil da carreira.

A grande questão que motiva o pensamento de Hamilton, externado de forma veemente após o qualyfing na Hungria, é que ele achou que seria fácil vencer Leclerc e ser dominante em um ambiente totalmente novo na carreira. Isso, certamente, vai levar tempo.

Hamilton e os fãs subestimaram não só Leclerc, mas um inimigo implacável: o tempo, a idade, o timing. Hamilton não está mais rápido do que no auge ou quando jovem. É inevitável perder décimos conforme o corpo desacelera, mesmo que os exercícios, a dedicação e a genética possam retardar ou esconder alguma coisa, mas os números são frios: é um piloto de 40 anos enfrentando outro de 27.

Vencer ou não Leclerc é possível e faz parte do jogo. No entanto, Hamilton precisa se acostumar com uma realidade triste para todos nós: ser derrotado por Leclerc, graças ao tempo. É inevitável.

Até!

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

O PRÓXIMO DA LISTA

 

Foto: Getty Images

O automobilismo brasileiro estava em um limbo até 2020, quando Felipe Drugovich começou a impressionar na F2 em meio a pandemia. Os frutos começaram a ser colhidos nos anos seguintes.

Se antes o Brasil não conquistava um título de fórmula em monoposto desde o Bruno Junqueira na F3000 em 2000, a nova safra deslanchou, começando com o próprio Drugovich. No entanto, os talentos que ali surgiam davam indícios e esperanças para uma nação ávida por um representante e, claro, um novo Senna para os saudosistas.

Já conhecemos a jornada de Gabriel Bortoleto e a ajuda de Alonso. O brasileiro, aliás, conquistou o melhor resultado na carreira e do Brasil em oito anos na F1. Hoje, vamos celebrar Rafael Câmara e o quarto título brasileiro em fórmulas em quatro anos. Estamos mal acostumados!

O pernambucano de 20 anos impressionou no kart a ponto de assinar com a academia da Ferrari antes de estrear nos monopostos, em 2021. Apenas nesta temporada é que o brasileiro chegou, depois de passar pelo FRECA, F4 e as competições de base do Oriente Médio, na F3. E foi uma temporada de gala.

Campeão com uma rodada de antecedência, Câmara repete o feito de estreantes do quilate do próprio Bortoleto, George Russell e Oscar Piastri a ser campeão como estreante. Bom frisar que seus adversários, apesar de serem mais jovens em termos de idade, são mais experientes na categoria. Ser campeão é ótimo. Conquistar a F3 com tamanha dominância se adaptando ao carro é impressionante.

As boas notícias não param por aí. Ao contrário de Bortoleto e Drugovich, Câmara já é apoiado por uma gigante desde muito cedo, quando observaram e captaram o talento do rapaz. Isso gera vantagens e atalhos. Obviamente, os resultados precisam acompanhar tudo isso, somada a pressão de "essere Ferrari". 

No ano que vem, Câmara já estará na F2, em equipe a ser anunciada. Sendo um piloto Ferrari, além do objetivo de chegar na equipe principal, a Haas é uma entrada interessante, sendo uma parceira dos italianos. Trajetória que o Bearman está seguindo. Estando na F2 e já com os pontos necessários para a superlicença, Câmara já poderia participar dos treinos livres. Para isso, a missão é continuar evoluindo no complicado grid da F2, que também terá um Fittipaldi alinhado para a próxima temporada.

Deixamos o futuro para o futuro. Agora, é comemorar porque não é todo ano que a safra brasileira conquista resultados tão importantes e entusiasmantes para o futuro no automobilismo mundial. O senso de vencer precisa estar mais aguçado principalmente para nós que não vimos "a era de ouro", no máximo o fim do apogeu com Barrichello e Massa.

Parabéns, Câmara!

segunda-feira, 28 de julho de 2025

NÃO É POR ACASO

 

Foto: XPB Images

É sempre bom lembrar que Oscar Piastri chegou como o rookie mais badalado e pressionado dos últimos tempos. Não é todo dia que alguém vence F3 e F2 de forma consecutiva. Há um período de adaptação ao migrar para a outra categoria, mas ele não sentiu isso. Também não é comum um cara com essas credenciais ter ficado um ano mofando na Alpine.

Também é incomum um novato colocar a equipe na justiça para assinar com a McLaren. Mesmo que tenha se saído vencedor, uma porta importante se fechou, embora outra tenha sido arrombada. Chegar na F1 com o peso dos títulos que chegou e a pressão de uma desgastante e estressante batalha judicial me levou a escrever sobre a pressão que o australiano carregava nos ombros.

Tudo isso se soma ao fato de chegar em uma equipe irregular e com um dono claro: Lando Norris. Não seria fácil. Outros talentos também chegaram com pompa de futuros protagonistas, mas naufragaram por estarem no lugar errado e na hora errada. Sim, sempre lembrarei de Stoffel Vandoorne por aqui.

Nos primeiros anos, o esperado aconteceu. Sem testes ilimitados, é preciso tempo para começar a andar próximo de quem está habituado. Piastri sofreu, mas ainda assim conseguiu sua primeira vitória na carreira. Ele e a McLaren cresceram na hora certa.

Isso seguiu. Na hora da pomada, a McLaren voltou a ser protagonista. De campeã de construtores, agora o título é mais do que realidade. O único rival é o vizinho da garagem. Piastri, agora, está mostrando porque foi disputado judicialmente, porque é campeão da F3 e da F2. Quando se adaptou e viu o que estava em jogo, está levando vantagem. Isso é um aspecto importante, sobretudo no mundo da F1 onde tudo é construído para um piloto e brigas internas não são sinônimo de coisas boas.

Na outra ponta do grid, Gabriel Bortoleto chegou com as mesmas credenciais. Campeão da F3 e da F2 em sequência. Tudo começou com um sonho, que foi virando realidade graças ao próprio talento e o apoio de um certo Fernando Alonso. Isso é mais importante que alguma academia de pilotos, talvez.

Justamente o mais talentoso da leva que subiu para a F1 ficou com a pior vaga, talvez justamente por não ser de nenhuma academia de pilotos. Estar na Sauber, cada vez mais Audi, é uma faca de dois gumes: sem possibilidade de pontuar, Bortoleto não seria muito exigido. Basta não errar, não bater e não ser tão inferior ao super experiente Nico Hulkenberg.

O pessoal esquece que Hulk sempre foi subestimado. Não a toa segue na categoria. Nunca precisou de grana para estar lá. Na F1, adaptação é tudo, conta mais que a idade. Bortoleto vai precisar de paciência que os brasileiros nunca terão. Só ano que vem ele estará inteiramente habituado a um carro de F1, considerando também os aspectos físicos.

O início e o senso espetacular de aproveitamento de Hulk já pressionam o garoto. “Pô, perdendo de lavada pra esse velho?” Ritmo inferior, azares e erros da equipe também tensionam o ambiente na blogosfera tupiniquim. Será que o campeão da F3 e da F2 não vai arranjar nada na F1? É um animal diferente? Vai flopar? Ir para a Indy?

Se não ganha, não presta. Já sabemos como a coisa funciona e a banda toca. Acham que estar atrás de Hulk é demérito. Bortoleto é o segundo piloto da parada e está evoluindo de forma nítida. A diferença são as estratégias e o ritmo de corrida, que o brasileiro está melhorando aos poucos. Ninguém desaprende a dirigir.

A F1 está cheia de exemplos de talentos da base que não viraram o que se imagina. Provavelmente Bortoleto estará nessa lista. Afinal, se não for campeão, já terá o carimbo de fracassado dos brasileiros.

Que todos consigam ver o talento que Fernando Alonso vê nele há anos. Que os primeiros pontos da carreira (e também do Brasil no grid desde 2017) deem mais tranquilidade para Bortoleto realizar seu trabalho e seguir evoluindo na carreira.

Afinal, não é por acaso que Piastri e Bortoleto conquistaram o que conquistaram e chegaram aonde estão. Não é por acaso.

Até!

quinta-feira, 10 de julho de 2025

A PERESTROIKA TAURINA

Foto: Getty Images

Fim de uma era. Christian Horner não é mais o chefão da Red Bull. Como em quase tudo nessa organização, a saída de cena foi a pior e mais fria possível. Tudo bem, o clima por lá está horrível há anos, mas o mundo dos negócios (ou da vida) é assim mesmo: você é lembrado pela última corrida.

Claro, Horner não saiu em virtude disso somente. É um acúmulo de problemas internos e que viraram públicos na Red Bull. Desde o escândalo do assédio a uma funcionária da equipe e a briga com Helmut Marko pelo controle do time após a morte de Dietrich Mateschitz. Quem mantinha Christian por lá eram os acionistas tailandeses. A julgar pelo que aconteceu, a queda de braço foi vencida pelo caolho.

A principal jogada pode ter sido feita pelo maior apoiador que um homem pode ter a essa altura do campeonato: Max e a família Verstappen. É nítido e notório que Max defende Marko, que o trouxe para a F1 ainda garoto. O pai, Jos, nem se fala. Se a escalada de acontecimentos pareciam ter chegado ao ápice anteriormente, por que a mudança abrupta, justo agora?

Se tratando de Red Bull, não é surpresa o modus operandi. Esqueça a subida de Lawson, a chegada de Hadjar em detrimento de Colapinto e a tentativa de comprar o time às escondidas depois da morte do Mateschitz. Algo bem simples surge como fato novo em 2025. O contrato e o futuro de Verstappen.

O holandês pode escolher o que fazer. Pela claúsula de desempenho, desse jeito ele pode sair da Red Bull ainda no fim do ano, mesmo com contrato longo. A imprensa europeia andou veiculando com veemência na semana passada uma possível aproximação com a Mercedes, que o sonda e namora há tempos.

Diante da iminente perda, era hora do último truque: tirar o chefe que Verstappen e o pai não suportam e passar tudo para o comando do amigo e aliado Helmut Marko. Ignore que ele é um senhor de idade avançada. Tirar Horner de cena, ignorando os 20 anos de sucesso com o time que ele criou, é o último recurso para a esperança da Red Bull ser, de fato, do jeito que Verstappen e seus aliados querem.

Talvez isso não seja o suficiente. E se Max se cansar do ambiente e optar por algo novo? Há a fadiga dos metais. Lembrem-se: a saída de Horner não é caso isolado. Newey e Wheatley, figuras fundamentais, também já tinham deixado a Red Bull. Sinal de como as coisas andam por lá? Pode ser que sim, pode ser que não, mas não é coincidência a queda da hegemonia da equipe, mesmo justificando o foco no ano que vem.

Pode ser que esse movimento não seja o suficiente para convencer Verstappen. Talvez ele tenha percebido que, para ser campeão, é necessário sair e, hoje, os taurinos não oferecem aquilo que ele quer, além da saída de Horner, é claro.

Laurent Mekies, que era o chefão da satélite Racing Bulls, vira o novo chefe de equipe. Como consequência, Alan Permane o substitui no time B da Red Bull. Ainda acredito que um Vettel vai voltar para ser consultor. A Red Bull precisa de referências porque o time está ficando sem elas e pode estar em vias de perder a principal de sua história, além de Horner, é claro.

Assim, de forma melancólica, chega ao fim a era de um dos chefes de equipe mais poderosos pós Ron Dennis, Briatore e Frank Williams. Ele certamente voltará. Estejamos atentos. Horner é capaz de voar sem precisar de energéticos.

Até! 
 

segunda-feira, 7 de julho de 2025

O FIM DA PRISÃO

 

Foto: Getty Images

O contexto vocês já sabem. Quando ainda tinha uma frequência diária por aqui, escrevi que, provavelmente, Hulkenberg na ainda Sauber era o mesmo que a gente aguardar o meteoro chegar por aqui.

Ele é o cara que menos tem a ver com a categoria e o que ela se tornou. Escrevi sobre isso em 2023. "Velho", sem academia de pilotos ou um patrocinador bancando, o tempo de Hulk parecia ter batido. Equipes e chances não faltaram. Azares e outras coisas resumiram a carreira desse competente piloto no "o cara sem pódios".

Enquanto escrevia isso, a ficção e a realidade se misturam de formas incríveis. Em meio a exibição da superprodução da Apple, fiquei pensando em como um filme, muito bem feito, tem suas nuances de pastelão e histórias não críveis. Para o cinema, é mais do que necessário. Afinal, sem a fantasia, qual o interesse em fazer um filme?

Brad Pitt, ou melhor, Sonny Hayes, mostram que algumas histórias podem não ser tão fantasiosas, por mais que o clichê da volta por cima de um underdog seja irresistível. É tiro e queda, é o arroz com feijão bem feito, bem temperado.

O alemão que prometia tanto nas categorias de base chega na F1, faz um barulho razoável, mas falha em dar o grande passo. Sempre fica no quase. É consistente, mas quando as coisas fogem do controle, ele desaparece. O tempo passa, os cavalos também e ele perde o bonde da história. Mais um bom piloto que, sem os números, acaba esquecido e até julgado de forma equivocada e injusta. A história é feita pelos vencedores.

Por isso uma certa desconfiança, ainda mais da geração drive to survive, quando Hulk finalmente volta para a categoria para guiar a Haas, até então o pior carro que ele guiou na carreira. Os mais jovens talvez não lembrem, mas Hulk fez chover naquela Sauber de 2013, a saudosa Sauber preta.

Mal saberíamos o que estava por vir. O piloto velho, que chamei de Roberto Pupo Moreno por ser um super trunfo na pandemia, tinha a última chance, que virou penúltima. Da Haas, uma aposta na Audi, ainda Sauber, pensando no futuro e o último capítulo da carreira.

"Igual aquele filme ou série que teve a continuação que não pediu, vamos ter um novo capítulo de Hulk na F1, o injustiçado, o melhor piloto que nunca pegou um pódio na história. Quem sabe o destino não está guardando algo para ele, tal qual fez com Baltazar e surpreendeu K-Mag em São Paulo?

O bonde passou, mas voltou. Hulk está a bordo."

Escrevi isso em 2022. Hulk mostrou hoje que a fábula de Sonny Hayes escrita por Hollywood não é uma hipérbole tão exagerada. O loiro galã, que teve os resultados que se esperava e tinha virado chacota ou desconfiança, vai para o pior carro do grid ao lado de um garoto promissor, que venceu a F3 e a F2 em sequência.

O carro de 2025 é um caso perdido, pois o foco está em 2026, quando a Audi vira Sauber. Cuidado, pois os suíços ainda estão no comando. 

A história vocês viram hoje: largando em penúltimo, com um dos piores carros, só uma corrida maluca poderia transformar o limão em limonada.

O destino finalmente começou a sorrir para o alemão. Em 2025, a competência dele também teve altas dosagens de sorte. Isso explica os pontos conquistados na Austrália e na Espanha, principalmente. Hoje, a pena tinha chegado ao fim.

Com a estratégia correta e, claro, a sorte que lhe faltou em 14 anos, o flerte com o pódio virou realidade. Não era mais piada. Hoje, Hulkenberg entrou para a história. Não é um pódio qualquer. É um pódio depois de 239 corridas, várias equipes, desilusões, anos ausente e com um carro que não é dos melhores. 

Nenhum desses ingredientes são inéditos na categoria, mas só Hulk consegue juntar todos esses contextos. Acrescente um detalhe maravilhoso: hoje, tivemos uma vitória da F1.

Escrevi também, em 2023, que Hulk era o último journeyman de uma categoria que não pertence mais a ele ou ao olhar que fui moldado, por exemplo. Numa era de jovens pilotos, drive to survive, academia de pilotos e pagantes bilionários, ver um cara que virou "lado B" atingir o auge justamente quando virou o patinho feio é uma vitória do automobilismo de verdade, que agora está em um caminho irreversível de se tornar apenas história. 

Hulk é o que sobrou desse romantismo. Claro que não considero os campeões quarentões porque eles são, justamente, campeões. Nico é a raridade entre os raros. Só isso importa.

Precisava voltar ao velho hábito por ele, por mim e pela F1. 

6 de julho de 2025: o dia que a prisão de Hulkenberg acabou. O sonho, agora, estava livre para voar.

Dino Viola, presidente da Roma quando a equipe venceu o bicampeonato italiano depois de 41 anos, falou mais ou menos isso, em trecho para o novo livro de Lorenzo Latini intitulado "Roma Scudetto - No porto com a bandeira", o que resume este momento:

"Esta conquista nos permite escapar da prisão do sonho. Chega de gaiolas ou grades: somos livres para viver este sonho e aproveitá-lo. Porque não há alegria maior do que acordar e perceber que aquele doce sonho finalmente é realidade."

Até!