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| Foto: Getty Images |
Valorizamos a honestidade brutal, mas é difícil quando ela
vai de encontro com as nossas crenças ou opiniões. Quando se chamou de inútil e
que a Ferrari deveria procurar outro piloto, Hamilton foi extremamente sincero
sobre o momento que vive na Ferrari nesses primeiros meses de equipe.
Isto é louvável. Um cara que compete em alto nível desde
criança sem se eximir das responsabilidades impostas pelo trabalho e por ser,
para muitos, o maior piloto da história. Por outro lado, há formas e formas
dessa situação ser lidada. Que a cobrança e a frustração existem, sem dúvidas.
Externar, dessa forma e publicamente, é que parece o problema.
Estamos lidando com imagem. Se o grande líder do projeto da
maior equipe do mundo fala assim após uma sessão frustrante, qual a mensagem
que isso passa para o público e os acionistas? Alesi e outras figuras
importantes afirmaram que um Senna ou Schumacher jamais falariam isso dessa
forma. Podem até sentir, mas não externar assim.
Não quero debater como alguém deve se manifestar porque é
naturalmente ridículo e pretensioso. O que eu quero tentar aqui é entender o
que se passa por trás desse tipo de manifestação. Isso vai muito além de um
treino ruim, amplificado com a pole do companheiro. Sabemos disso.
Quem compete em alto nível sempre vai esperar excelência e
vencer. Do contrário, não faz sentido se dedicar desta forma. Hamilton não
precisa mais da F1 em qualquer dos aspectos assinalados: dinheiro, fama, poder,
glória, etc. Por isso, a cobrança e frustração é genuína, principalmente quando
é surpreendente no microfone para o mundo inteiro ver e ouvir.
Ao ser contratado para tirar a Ferrari da seca, Hamilton
realiza um sonho de menino no último capítulo da carreira. É uma glória, mas
também um peso. Ok, sabemos que Lewis passou por provações muito piores do que
guiar e conseguir resultados em um esporte, mas o peso fica ainda maior para
todo mundo que tenta repetir Schumacher.
Alonso e Vettel, os últimos campeões que chegaram, não
conseguiram. Não existe combinação maior na transferência mais bombástica da F1
em quase 30 anos. Todos sabemos que o projeto é de longo prazo e o objetivo
maior é a partir do ano que vem, quando o novo regulamento começa a entrar em
vigor.
O problema começa quando as pessoas não entendem que
Hamilton não está chegando na Ferrari no auge da carreira ou nos tempos de
Schumacher onde era possível fazer testes ilimitados. A adaptação a um novo
carro leva tempo, independentemente do talento ou da capacidade do piloto ser
mais rápida e fácil ou mais lenta e difícil.
Do outro lado, não tem um Irvine ou um Barrichello, na
figura de segundo piloto, por ali. É Charles Leclerc, no auge da carreira e com
uma especialidade semelhante a de Hamilton: a volta lançada, não à toa o
monegasco tem quase 30 poles na carreira sem ter um carro dominante. Por todo o
contexto, não é um desafio fácil para Hamilton enfrentar o segundo companheiro
de equipe mais difícil da carreira.
A grande questão que motiva o pensamento de Hamilton,
externado de forma veemente após o qualyfing na Hungria, é que ele achou que
seria fácil vencer Leclerc e ser dominante em um ambiente totalmente novo na
carreira. Isso, certamente, vai levar tempo.
Hamilton e os fãs subestimaram não só Leclerc, mas um
inimigo implacável: o tempo, a idade, o timing. Hamilton não está mais rápido
do que no auge ou quando jovem. É inevitável perder décimos conforme o corpo
desacelera, mesmo que os exercícios, a dedicação e a genética possam retardar
ou esconder alguma coisa, mas os números são frios: é um piloto de 40 anos
enfrentando outro de 27.
Vencer ou não Leclerc é possível e faz parte do jogo. No
entanto, Hamilton precisa se acostumar com uma realidade triste para todos nós:
ser derrotado por Leclerc, graças ao tempo. É inevitável.
Até!

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